quinta-feira, 9 de junho de 2016

O contexto dos poetas a palavra dos profetas, Jesus nossa promessa. (Para Jesus)

Luís de CAMÕES (Portugal 1524 –1580) Elegia (Trechos) ... ... ... 

Esta Potência, enfim, que tudo manda, 
Esta Causa das causas, revestida 
Foi desta nossa carne miseranda. 
Do amor e da justiça compelida, 
Pelos erros da gente, em mãos da gente
(como se Deus não fosse!) perde a vida.
Ó cristão descuidado e negligente 
Pondera isto, que digo, repousado, 
Não passes por aqui tão levemente. 
Não, que aquele Deus alto incriado, 
Senhor das cousas todas, que fundou 
O Céu, a Terra, o fogo e o mar irado, 
Não do confuso Caos, como cuidou 
A falsa teologia e o povo escuro, 
Que nesta só verdade tanto errou; 
Não dos átomos falsos de Epicuro; 
Não do largo Oceano, como Tales, 
Mas só do pensamento casto e puro. 
Olha, animal humano, quanto vales, 
Que por ti este grande Deus padece, 
Novo modo de morte, novos males. 
 ... ... ... 
O sumo Deus! Tu mesmo te condenas
 pelo mal em que eu só sou tão culpado, 
a tamanhas afrontas, tantas penas. 
Por mim, Senhor, no mundo reputado 
Por falso e por quebrantador da lei 
A fama de ti se põe do meu pecado. 
Eu, Senhor, sou ladrão; tu, justo Rei; 
Eu, só furtei; tu, com ladrões padeces;
A pena a-ti se dá do que eu pequei.  
Eu, servo sem valor; tu, sumo preço, 
Em preço vil te pões, por me tirares, 
Do cativeiro eterno, que mereço. 
Eu, por perder-te; e tu, por me ganhares, 
Te dás aos homens baixos, que te vendem, 
Só para os homens presos resgatares. 
A ti, que as almas soltas, a ti prendem; 
A ti, sumo Juiz, ante juízes te acusam, 
Pólo error dos que te ofendem. 
Chamem-te malfeitor, não contradizes; 
Sendo tu dos Profetas a certeza, 
Dizem que quem te fere profetizes. 
Rim-se de ti; tu choras a crueza 
Que sobre eles virá. A gente dura, 
Por quem tu vens ao mundo, te despreza. 
O teu rosto, de cuja formosura 
Se veste o Céu e o Sol resplandecente, 
Diante do que muda está a Natura, 
Com cruas bofetadas da vil gente, 
De precioso sangue está banhado, 
Cuspido, arrepelado cruelmente. 
Com cordas pelas ruas o levavam, 
levando sobre os ombros o troféu 
das vitórias que as almas alcançavam. 
Ó tu que passas, homem Cireneu, 
Ajuda um pouco este Homem verdadeiro, 
Que agora como humano enfraqueceu! 
Olha que o corpo, aflito do marteiro 
E dos longos jejuns debilitado, 
Não pode já co peso do madeiro. 
Oh não enfraqueçais, Deus encarnado! 
Essas quedas, que tanto vos magoam, 
Suportai, Cavaleiro sublimado!

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